Artigo de Ramiro Brito, no Jornal de Notícias: Energia: o Norte pode ganhar, ou voltar a perder, a nova corrida industrial europeia
Publicado a 5 mai. 2026
Num mundo onde a energia decide onde se produz, o Norte pode voltar ao centro, se não hesitar.
A energia regressou ao lugar onde sempre pertenceu: ao centro das decisões económicas. No Norte, isso não se discute, sente-se. Sente-se no ritmo das fábricas, nas decisões que ficam em suspenso, nos investimentos que aguardam uma variável cada vez mais decisiva: o custo de produzir. A resposta da Comissão Europeia segue um guião compreensível. Proteger famílias e empresas, incentivar a contenção, reforçar reservas, coordenar compras. Tudo necessário. Tudo insuficiente. Para quem vive da indústria, a energia não é um episódio, é estrutura, é a diferença entre avançar ou adiar, entre crescer ou retrair, entre investir ou esperar. Nenhuma economia industrial se constrói sobre a expectativa. A Europa tenta, uma vez mais, ganhar tempo, mas o mundo não está parado, está a reorganizar-se. É nesse movimento que o Norte pode encontrar uma oportunidade rara, talvez a mais relevante das últimas décadas. Num continente pressionado por custos elevados e dependências externas, Portugal dispõe de um ativo que muitos perderam: a capacidade de produzir energia renovável em escala crescente e, sobretudo, com custos competitivos. O que, noutros países, é uma ambição, aqui pode ser execução. O Norte acrescenta a esse potencial uma realidade concreta: indústria. Um tecido produtivo denso, resiliente, habituado a ajustar-se e a competir. Têxtil, metalomecânica, agroindústria, transformação, são setores onde a energia não é um detalhe, é uma linha de fronteira entre viabilidade e perda. Ainda assim, as vantagens, por si só, não decidem nada. Exigem escolha. Exigem, desde logo, velocidade. Não é compatível com este tempo estratégico manter projetos energéticos bloqueados por anos, em processos que não acompanham a urgência económica. Exigem proximidade. A energia tem de deixar de ser distante para quem produz. Autoconsumo, comunidades energéticas e soluções de armazenamento não podem continuar a ser exceções regulatórias. Têm de tornar-se prática corrente.
Exigem previsibilidade. Sem estabilidade nos custos, o investimento encolhe, a ambição retrai-se e o crescimento torna-se uma promessa adiada. Exigem, acima de tudo, visão, porque energia competitiva não serve apenas para reduzir custos, serve para atrair indústria, consolidar cadeias produtivas e reposicionar territórios. Num mundo em que a energia voltou a ser um fator de decisão estratégica, o capital não procura apenas eficiência, procura segurança, previsibilidade e escala. Procura lugares onde produzir faça sentido. O Norte pode ser um desses lugares, mas não por inércia. A Europa está a tentar proteger-se. Outros estão a reposicionar-se. Entre uma e outra atitude, define-se o futuro. O Norte não precisa de mais diagnósticos. Precisa de decisão. Pode continuar a adaptar-se ao preço da energia, ou pode usar a energia para redefinir o seu lugar na economia europeia. Desta vez, não se trata de reagir. Trata-se de escolher.
Ramiro Brito, Presidente da Associação Empresarial do Minho (AEMinho) e CEO do Grupo Érre
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